ADOÇÃO

    Uma das maiores dificuldades dialéticas encontradas por casais que adotam crianças é justamente o método a ser empregado para esclarecer aos filhos adotivos qual a situação deles dentro da família.

    A abordagem muitas vezes resulta em conflitos, crises, culpas e estruturas problemáticas de relacionamento, que comprometem ou dificultam a confiança, a amizade e a convivência familiar.

    Os piores problemas ocorrem quando os pais tentam esconder a situação da adoção e a criança, por qualquer razão, vem a descobrir não ser filho biológico do casal. Outras vezes, por não conseguirem abordar o tema, os pais adotivos evitam ao máximo falar sobre o assunto, promovendo, finalmente, inesperada e surpreendente revelação, em fase de estruturação de identidade da criança ou do adolescente em que este tipo de conflito é extremamente prejudicial. Outras vezes, a abordagem da questão, apesar de feita em época oportuna, é realizada com tal inabilidade que os pais adotivos transferem enorme carga de insegurança, culpabilidade e piedade para a criança, criando relacionamento sobre o qual se estruturam dificuldades que acompanharão toda a vida familiar.

    A mente da criança é um livro em branco pronto para ser escrito pelas pessoas que a cercam. Bloqueios e preconceitos não são inatos mas determinados pelas reações e atitudes dos que lhe são caros. A criança adotada desde o nascimento, quando adequadamente esclarecida, vai considerar a sua situação de adoção com plena naturalidade e não fará cavalo de batalha deste fato, a não ser que os familiares consigam transmitir-lhe eventuais preconceitos.

    A grande problemática dos adultos é relacionada ao aspecto biológico. Para os adultos, é importante saber de quem é o espermatozóide, de quem é o óvulo, quem sofreu o trabalho e as dores do parto. No conceito deles, os pais verdadeiros são os pais biológicos, aqueles que forneceram os materiais genéticos para a concretização corporal da criança.

    Por outro lado, a questão biológica interessa muito pouco para a criança. O conceito de mãe para o bebê é estruturado a partir do primeiro dia de vida pela convivência, pelos cuidados constantes, pelo afeto e pelo amor demonstrados diariamente.

    Temos uma questão de definições. Quem é a mãe? A mãe é aquela que cuida, que tem a guarda, que tem a autoridade, que ama e é amada. Este conceito é essencial para a criança e não deve ser abalado por dúvidas resultantes de colocação inadequada, sob o risco de desenvolvimento de conflitos de personalidade e relacionamento.

    Quem gera uma criança e não assume o filho, por qualquer razão, deve ser elevada à categoria de mãe? Em termos semânticos ou científicos, sim, mas nunca na cabeça da criança.

    Quando os assuntos da concepção, gestação e nascimento forem colocados para a criança adotiva, deve-se ter claro na mente que se está falando de assuntos biológicos, evitando-se as conotações afetivas. A primeira providência é não utilizar o termo mãe para definir a genitora biológica da criança. Como diz o dito popular, mãe é uma só e, psicodinamicamente, o cargo de mãe é muito importante na mente de qualquer ser humano para ser ocupado por duas pessoas. Quem gera a criança é a genitora, que é o termo que deve ser utilizado com naturalidade, para explicar os fenômenos biológicos naturais, como são a gestação e o nascimento.

    Deve-se ter isso claro na mente, antes de começar a explicar os fatos à criança, para não provocar confusão terminológica e psíquica. E não apenas os pais, mas os avós, os tios, os professores e os filhos biológicos também. Por falar em filhos, este também é um termo importante na estruturação da psique infantil, relacionado com a definição do próprio ego. O conceito de filho também deve ser utilizado com cuidado. A criança deve ser considerada como filho apenas da mãe afetiva e nunca da genitora. O termo certo para definir o relacionamento com a genitora é gênito ou gerado, vocábulos pouco utilizados, mas que devem ser incorporados na linguagem da família que tem filhos adotivos. Para facilitar, pode-se ainda utilizar o termo nascido.

    Outra questão é quando iniciar o diálogo. A definição dos termos deve ser realizada de maneira gradativa, o mais precocemente possível, mas nunca como revelação ou como assunto melindroso. Os pais devem aproveitar-se das situações e da própria curiosidade infantil para iniciar o assunto. As melhores situações decorrem da presença de mulheres grávidas. Crianças ao redor de dois anos de idade que tenham capacidade de diálogo definida podem estar interessadas no nenê que está na barriga da titia e tentar estabelecer as relações familiares envolvidas.

    A partir da idéia de que os nenês são gerados no ventre das mulheres, surge a curiosidade natural da criança a respeito da própria origem. O assunto pode ser adiantado pelos pais, em conversas simples e curtas, mas que têm grande importância para a criança. Uma sugestão é a de começar pela desejo dos pais de terem mais um filho. O desejo, surgido do amor, é o fator gerador mais importante, que deve ser repetidamente enfatizado, uma vez que é este desejo e este amor que avalizam a situação de adoção. Uma vez que a idéia foi insinuada e estabelecida, associa-se a ela o problema da incapacidade orgânica de gerar filhos por problemas de saúde. Problemas requerem soluções, e a solução encontrada pode ser, por exemplo, a intervenção de uma amiga (a genitora), que auxiliou o casal a gerar em seu ventre o fruto do desejo e do amor dos pais adotivos. Neste caso, ao contrário do que se passa na cabeça da maioria dos adultos, os pais, no sentido psico-relacional, são os que adotam e os biológicos seriam, para a criança, apenas genitores.

    Este tipo de abordagem não tem o objetivo de minimizar, para a criança, a importância dos genitores biológicos, mas, sim, de estabelecer claramente o papel das pessoas em sua vida. Os conflitos existenciais têm origem na confusão dos papéis entre as pessoas e no questionamento inevitável da própria identidade, quando, por emprego inadequado de terminologia, a criança não tem mais certeza sobre quem são seus pais (referenciais essenciais para a estruturação da personalidade).

    Nesta linha de pensamento, a figura dos genitores, mesmo desconhecidos pela criança, não deve ser minimizada. Sejam quais forem as circunstâncias que levaram à adoção, os genitores devem ser considerados pessoas amigas que ajudaram os pais a concretizar o desejo e o amor de terem um filho. Erro comum dos pais é aviltar a figura dos genitores, colocando-os para a criança como pessoas más, miseráveis ou ignorantes, capazes de abandonar a criança ou que, por incapacidade para sustentá-la, foram obrigados a doá-la a outro casal. Este tipo de abordagem é humilhante e degradante para a criança, fazendo-a sentir-se inferiorizada por suas origens, principalmente se o casal tiver filhos naturais. Da mesma forma que estes conceitos devem estar bem claros na mente da criança, também devem estar muito bem estruturados na cabeça de toda a família. Filhos não são concebidos (nem em pensamento) por caridade, para construir um mundo melhor, tirar um futuro marginal das ruas ou para substituir a perda de algum ente querido. O único e real sentimento que justifica a adoção é o mesmo que motiva a procriação do filho biológico, ou seja, o amor entre os seres humanos. E é só este amor, vivido em sua plenitude, que transforma em família pessoas completamente desprovidas dos laços naturais de sangue.