Estimulando o desenvolvimento neurológico do lactente
Aprendizado

    Todo aprendizado é um processo associativo e, portanto, sua qualidade depende da operacionalidade dos sistemas associativos e de suas interconexões. A partir de dois ou mais estímulos sensoriais, temos a aglutinação de informações para a formação de um conceito, que é uma terceira informação diferente das que lhe deram origem.

    O incentivo da estruturação dos processos associativos é de importância fundamental para qualquer aprendizado. Se um macaco aprende que, puxando uma alavanca, ganha uma banana, está associando informações. Ao descobrir que, quando estiver com fome, só vai precisar puxar a alavanca, estará associando processos.

    Aprender é associar, e esse aprendizado não precisa ser lingüístico. A inteligência depende, em grande escala, da capacidade associativa. A associação pode ser de estímulos ou de processos. Reconhecer é conhecer duas vezes, ou seja, associar dois ou mais estímulos (informações) sensoriais, formando um único conceito. Aprender significa associar processos simples a processos simples, originando formas de processamento mais complexas.

    Vale ressaltar a distinção entre o aprender e o apreender. Segundo o dicionário, apreender significa assimilar mentalmente, entender, compreender; estaria, portanto, mais adequado para descrever o aprendizado não-verbal no sentido abstrato, inconsciente ou tridimensional; enquanto aprender significa reter na memória mediante o estudo, a observação ou a experiência, ou seja, correspondendo mais ao que se convencionou localizar no departamento de inteligência verbal ou raciocínio lingüístico, no sentido lógico-formal e concreto.

    SÍNDROME DO SUPERDOTADO

    As crianças superdotadas sempre foram alvo de todo tipo de discriminações e preconceitos sociais. Por possuírem, geralmente, comportamento crítico e estereotipado, muitas vezes são vistas como desajustadas sociais e desequilibradas emocionais. De fato, a alienação e a cobrança feita pela sociedade como um todo e a falta de abordagem adequada de modo a preencher as suas lacunas psicológicas e emocionais não poderiam chegar a outro tipo de resultado.

    É comum acreditar-se que o estímulo precoce pode originar crianças superdotadas, com todos os seus desajustes psicológicos característicos. Nada mais equivocado!. Crianças superdotadas não podem ser produzidas por nenhuma técnica de estimulação precoce. O aparecimento de crianças com capacidade intelectual muito acima da média independe de qualquer técnica de treinamento e está relacionada a características intrínsecas ao indivíduo, as quais começam a manifestar-se durante a vida intra-uterina.

    Do mesmo modo, os seus desajustes não estão ligados à capacidade intelectual superior mas ao ostracismo vivido dentro da sociedade excessivamente medíocre, quando avaliada pelo ponto de vista do próprio superdotado. Ao falar, portanto, de estímulo ao desenvolvimento e pedagogia do lactente, tenha na mente que estou me referindo a crianças normais, pertencentes à média intelectual da sociedade, sem a pretensão de fabricar superdotados.

    BEBÊS PODEM APRENDER A LER?

    Alguns autores têm defendido a idéia de que bebês podem e devem aprender a ler, chegando a descrever técnicas de ensino de leitura e a relatar resultados surpreendentes com lactentes que mal sabem andar . Na verdade, o lactente não tem capacidade para ler da maneira como o adulto entende a leitura. O bebê pode ser treinado a reconhecer letras ou palavras mas a leitura seqüencial, tal como a conhecemos, é impraticável. Para que qualquer ser humano possa iniciar-se nos domínios da leitura - e isto em qualquer idade -, é essencial o pré-requisito da lateralidade. A criança, enquanto não saiba diferenciar o seu lado direito do esquerdo, não tem condições estruturais de organizar a sua atividade cerebral para a leitura, uma vez que a primeira regra da leitura ocidental é que a estruturação das palavras e frases seja feita da esquerda para a direita. Se a criança que sabe reconhecer as letras da palavra PAI tentar identificar esta palavra sem o padrão de lateralidade, é compreensível que traduza por IAP, AIP ou PIA.

    A lateralidade não é inata. Muitos adultos têm dificuldade de reconhecer a lateralidade, porque não foram treinados na época da estruturação do cérebro e precisam de acessórios como relógios, anéis ou alianças para reconhecer e distinguir o lado direito do esquerdo. Como estimular o desenvolvimento da lateralidade? Marcando um dos braços com uma pulseira, por exemplo. O cérebro vai se acostumar com essa informação e, quando a criança souber qual a mão que está habituada a usar a pulseira, é porque seu cérebro tem a noção de lateralidade.

    Não estou querendo afirmar que o treinamento do reconhecimento de palavras ou letras seja prejudicial para a criança. Ao contrário, pode até ser benéfico, uma vez que as técnicas de reconhecimento estimulam os processos associativos entre duas regiões que trabalham com padrões sensoriais bem diferentes: a área da visão e a área da audição, estruturando mecanismos essenciais para o aprendizado do processo de leitura tal como o conhecemos. O lactente tem a capacidade de aprendizado muito superior à do adulto. Por exemplo, para que a criança aprenda a conhecer a letra A (conhecer = associar), basta que associemos o estímulo visual ao auditivo não mais do que cinco segundos, uma vez por dia, por dez dias. No seu pequeno cérebro, o padrão visual da letra A estará associada ao seu som. O problema do lactente será incorporar no seu universo uma função para a informação. O que é o A? Para que serve? Por isso, as técnicas de treinamento de reconhecimento são realizadas inicialmente com palavras conhecidas ou, digamos assim, incorporáveis.

    Mais do que ensinar por ensinar, é importante conhecer o funcionamento da inteligência, de como se processa o aprendizado e quais são os objetivos pedagógicos que interessam ao desenvolvimento do ser humano.