Estimulando o desenvolvimento neurológico do lactente
Dialética
Dialética estruturativa

    Logo após o nascimento, o bebê não tem nenhuma estrutura lingüística de comunicação ao menos esboçada. No entanto, o seu sistema auditivo está plenamente desenvolvido para detectar sons e o seu cérebro está apto a reter as informações sensoriais provenientes do ambiente. A estruturação do sistema de linguagem inicia-se através do armazenamento dos sons das palavras ditas ao seu redor. Conversar com o recém-nascido e habituá-lo a estar presente durante as conversas entre adultos é extremamente útil para o cérebro distinguir padrões sonoros e descobrir que os sons representam um meio de comunicação. Ao ouvir repetidamente o mesmo som, o cérebro começa a constituir o que se convencionou chamar de engrama de memória , ou seja, alguns circuitos neuroniais têm os seus caminhos facilitados, de modo que determinados estímulos auditivos começam a ser armazenados, apesar de não serem reconhecidos. Determinado som só começará a ser reconhecido quando associado neuronialmente a outro tipo de estímulo relacionado.

Dialética demonstrativa

    A partir do momento em que o bebê começa a apresentar sustento cefálico eficiente e a permanecer mais tempo acordado e interessado no ambiente (entre o primeiro e o segundo mês de vida), os pais podem iniciar a dialética demonstrativa. A técnica é bastante simples e consiste em repetir, devagar e suavemente, o nome das pessoas e objetos nas quais a criança esteja fixando a atenção. Esta repetição não deve perdurar por mais do que alguns momentos e a atenção do bebê deve ser desviada em seguida para outro objeto que será tocado com a mão. Quando o bebê focar sua atenção sobre este novo objeto, pode-se começar a repetir o seu nome devagar.

    Dessa maneira, o seu pequeno cérebro estará associando um estímulo visual a um estímulo sonoro, associação esta que é a base do reconhecimento que podemos chamar de aprendizado. Com o tempo, o bebê vai acostumar-se com a brincadeira e passar a exigi-la mais e mais freqüentemente, constituindo verdadeira rotina de desenvolvimento neurosensorial.

Dialética associativa

    Depois da fase de reconhecimento binário simples, em que a criança tenha automatizado as relações entre os estímulos auditivos e visuais, o cérebro passa a trabalhar não mais com os estímulos sensoriais isolados, mas com conceitos de objetos formados por estímulos multissensoriais complexos. Uma vez adquiridos os conceitos básicos, os pais podem começar a trabalhar a dialética associativa, que reforçará a estrutura da função dos objetos, introduzirá a noção e a utilização dos verbos (no sentido gramatical), bem como as inter-relações complexas entre os seres e os objetos.

    A dialética associativa pode ser empregada a partir do quarto mês de idade e deve sempre empregar os termos e objetos pertencentes à rotina do bebê. Desse modo, os pais vão estruturar verbalmente as atividades que acontecem na vida da criança para aproveitarem as oportunidades de aprendizado. A técnica consiste em relatar as relações existentes na rotina diária. Durante a refeição, a colher serve para o bebê comer; durante as trocas, a roupa serve para vestir; e assim por diante.

Dialética comparativa

    Ainda com o objetivo de estimular o processamento e as interconexões neuroniais, a partir do momento em que percebermos que o bebê tem estruturado um pequeno vocabulário (geralmente ao redor dos seis meses), podemos utilizar a dialética comparativa para enriquecê-lo. A técnica consiste em expor visualmente objetos com elementos em comum e ressaltar as diferenças entre eles. Por exemplo: bola grande - bola pequena; bola azul - bola vermelha; bola leve - bola pesada. À medida que a criança se desenvolve, as comparações se tornarão mais sutis ou mesmo subjetivas: bola lisa - bola áspera; bola feia - bola bonita; e assim por diante.

Dialética classificadora

    Mais tarde, quando da introdução de mais de dois elementos ao processo comparativo, estaremos iniciando um processo classificativo mais enriquecedor, ensinando ao bebê técnicas de diferenciação mais complexas baseadas em critérios e padrões preestabelecidos. Assim, as primeiras classificações podem ser do tipo: pequeno - médio - grande - enorme; quente - morno - frio - gelado; azul - verde - amarelo - preto; e assim por diante. Buscar elementos em comum, classificar pelas diferenças, estruturar padrões universais de comparação e classificação são formas de estimular interconexões neuroniais importantes, interconexões que acompanharão a criança por toda a vida e servirão de base para a formação do raciocínio tal como o conhecemos.

Dialética simbológica

    O uso de símbolos para representar seres, atributos e objetos é um recurso superior da mente só conhecido na espécie humana. Através da simbologia, o cérebro pode simplificar caminhos e processos, economizando recursos para estabelecer raciocínios elaborados. O ser humano nasce com capacidade inata para simbolizar, a qual pode ser aproveitada ao máximo através de adequada orientação.

    A maneira de iniciar a dialética simbológica é simples e através do brinquedo. Basta pegar três bonecos de diferentes tamanhos e dizer que são o papai, a mamãe e o nenê. A partir daí, a dialética simbológica não tem mais limites, passando pela escrita, pela matemática e por todas as ciências. Para a criança, brincar é um grande exercício de simbolização. Quanto maior a diferença entre o símbolo e o objeto representado, mais recursos cerebrais estarão envolvidos no processo e maior o estímulo à capacidade associativa.

Dialética do absurdo

    A partir do terceiro semestre de vida, muitos bebês têm vocabulário bastante rico e definido. Exatamente por estar definido, o vocabulário pode tornar-se fonte de grande alegria para a criança (temática do humor). Quem lida com crianças pequenas sabe que a grande piada nesta idade é o absurdo (aliás, em qualquer idade). Trocar o nome de pessoas e objetos, inverter atributos (gordo por magro ou grande por pequeno), inventar pequenos absurdos, são maneiras de originar risos e gargalhadas. Neurolingüisticamente, a informação absurda é recebida pelo cérebro, processada e rejeitada através do humor. Pedagogicamente, a dialética do absurdo, como todas as outras, é uma técnica de forte estímulo aos processos associativos.