Estimulando o desenvolvimento neurológico do lactente
O papel das emoções

    Neurofisiologicamente, podemos definir a emoção como um circuito neuronial associativo primitivo, não-verbal, eliciado por estímulos específicos, retroalimentado , inato e de caráter comportamental.

    As emoções são universais, pois se encontram em todas as raças e povos, independentemente do padrão cultural . Muitas das emoções tipicamente humanas são encontradas também em determinados animais, que propiciam modelos de estudo bastante esclarecedores para os cientistas do comportamento. Os circuitos emocionais são geneticamente programados e tipicamente relacionados com áreas cerebrais e neurotransmissores específicos. Mesmo estruturados em fases precoces da vida intra-uterina, podem ser modificados, elaborados e controlados na vida pós-natal, seja por interferência de processos verbais ou não-verbais.

    A maioria das emoções é direcionadas entre quatro núcleos primitivos: medo, raiva, prazer e desprazer (todos neurocircuitos relacionados a determinadas estruturas cerebrais e neurotransmissores específicos). Estas quatro sensações são encontradas no ser humano desde o nascimento e são essenciais para a sobrevivência animal. Com a elaboração da arquitetura cerebral, estes sentimentos se desdobram e ramificam, mas, por mais sofisticados que sejam, guardam sempre relação com sua origem primitiva.

    Desprazer

    As necessidades fisiológicas geram sensações físicas, como a fome, o sono, a sede, o calor, o frio, a dor, que culminam em um denominador final comum que podemos chamar de desconforto primário. O desconforto primário está ligado a circuitos de desprazer que estimulam outros circuitos emocionais, como a ansiedade, a angústia, a depressão, a tristeza e a insegurança O recém-nascido não tem necessidade de distingüir estas sensações (que, aliás, mesmo na fase adulta, às vezes se confundem em determinadas situações), uma vez que a resposta comum a todas elas é a mesma (o choro). É um instinto neuroprogramado básico, essencial para a sobrevivência (quem não chora não mama) que acompanha o ser humano por toda a sua existência, por vezes determinando comportamentos e atitudes completamente irracionais, por assim dizer, mas preponderantes.

    Prazer

    A resultante comportamental do desconforto primário é o choro, que é compensado pela mãe com carinho, palavras, embalo, leite, contato fisico, calor humano e companhia. A resolução da situação que gerou o desconforto primário direciona o comportamento para as áreas cerebrais do prazer, estimulando circuitos emocionais como saciedade, conforto, segurança, confiança, paz e alegria (felicidade). Estas sensações não precisam, em um momento inicial, ser distinguidas, mas simplesmente interpretadas conjuntamente, como o que podemos chamar de deleite primário. A neuroquímica do prazer vem sendo estudada intensivamente há alguns anos e vários neurotransmissores e hormônios estão sendo relacionados a esta sensação, entre eles as endorfinas, a feniletilamina (PEA), a dopamina, a norepinefrina e a oxitocina. Nesta fase da vida, a função neurobiológica do prazer é essencialmente reforçar atitudes ou, em outras palavras, estimular o aprendizado de determinados comportamentos interessantes para a sobrevivência do indivíduo.

    Medo

    O medo é uma das emoções animais mais primitivas, simples e essenciais para a sobrevivência. Também é uma das que eliciam respostas comportamentais mais rápidas e menos elaboradas. Exaustivamente estudado em modelos animais, o circuito neuronial do medo é bem conhecido e interpretado.

    O núcleo anatômico básico desta emoção reside em uma pequena estrutura cerebral denominada amígdala cerebral. A amígdala cerebral é uma estrutura primitiva que comanda quase independentemente as reações animais instintivas de fuga. Determinados estímulos sensoriais pré-determinados podem ser enviados à amigdala cerebral, mesmo sem serem interpretados pelas áreas de inteligência verbal (córtex cerebral). A amígdala, ao receber estes estímulos, desencadeia o circuito do medo, resultando na reação comportamental de fuga. É uma atividade totalmente irracional, uma vez que não passa pela avaliação das estruturas cerebrais mais elaboradas.

    Raiva

    A origem da raiva reside nas reações de defesa da prole. É um instinto que garante a reprodução da espécie, sendo mais rápido e poderoso mesmo que as reações de medo, que são geralmente completamente abafadas pela raiva. Este circuito faz com que o animal que reagia à agressão com a fuga, volte-se para atacar seu agressor, principalmente se sua prole estiver ameaçada.

    Todo comportamento humano, por mais elaborado que seja, é basicamente motivado por medo, por raiva, pela fuga do desconforto ou pela procura do prazer. Conhecendo esta origem não-verbal tão primitiva, fica fácil perceber o porquê da complexidade das atitudes humanas.

    Durante o processo evolutivo, o ser humano vai progressivamente adquirindo a capacidade de distinguir, classificar e controlar as diferentes sensações e emoções, tanto as suas próprias, quanto as das pessoas com as quais convive. É o que se convencionou chamar de inteligência emocional.

    As emoções são fundamentais para a sobrevivência animal. Fugir, atacar, reproduzir e defender são comportamentos motivados por circuitos emocionais.

    À medida que a sociedade humana consegue conhecer e controlar as emoções, alcança, paralelamente, padrão relacional mais complexo e, por assim dizer, civilizado. Regras sociais de comportamento envolvem, como princípio básico, o controle emocional.

    Auxiliar a criança a reconhecer e comandar suas emoções primitivas é passo fundamental na educação do ser humano.