PREVENÇÃO DE DOENÇAS NA INFÂNCIA
Prevenção das complicações do refluxo gastroesofagiano

    O refluxo gastroesofagiano (RGE) é patologia bastante freqüente em recém-nascidos e lactentes que não pode ser considerada uma situação normal.

    O que causa o refluxo gastroesofagiano em crianças pequenas é a hipotonia (fraqueza) de um pequeno músculo situado entre o estômago e o esôfago, chamado cárdia, que, em situação normal, impede que o conteúdo ácido do estômago reflua para o esôfago durante o processo digestório. Apesar de, às vezes, o RGE não causar nenhuma espécie de prejuízo, pode ser acompanhado por série de complicações graves e prejudiciais, se a criança estiver fazendo uso de leite de vaca.

    O principal sintoma do refluxo gastroesofagiano é a regurgitação que ocorre após as mamadas. No entanto, em muitos casos, o refluxo gastroesofagiano e suas conseqüências nefastas podem existir mesmo que as regurgitações não sejam visíveis para a família. Isso ocorre principalmente à noite, quando a criança dorme em posição que facilite o refluxo.

    O refluxo gastroesofagiano manifesta-se de diferentes formas em cada paciente e pode ser responsável, entre outra coisas, por patologias respiratórias, como a obstrução nasal crônica, bronquites de repetição, pneumonias de repetição e otites de repetição. O aparecimento destas patologias está relacionado com a aspiração do conteúdo gástrico para o interior do sistema respiratório, durante os episódios de refluxo.

    O refluxo gastroesofagiano pode desenvolver também a complicação de difícil controle denominada esofagite. Por não ter proteção de muco como o estômago, o esôfago sofre muito com a regurgitação ácida, e desenvolve um processo inflamatório crônico, conhecido como esofagite de refluxo. A esofagite provoca muita dor (geralmente interpretada como "cólicas"), distúrbios alimentares (podendo levar à desnutrição) e, por promover o relaxamento do cárdia, piora o próprio refluxo, causando círculo vicioso.

    O tratamento clínico do refluxo gastroesofagiano repousa sobre três pilares:

    1. Medicamentoso, prescrito pelo Pediatra.

    2. Higiênico-dietético, que consiste em:

    a) Incentivar o aleitamento materno. Por ser substância imunologicamente estranha ao organismo humano, o leite de vaca produz fenômenos inflamatórios muito mais intensos, quando atinge as vias respiratórias através do refluxo.

    b) Aumentar a consistência dos alimentos sob orientação pediátrica, adicionando, por exemplo, maisena ou farinha de aveia ao aleitamento artificial já instaurado, ou usando uma fórmula láctea própria para o Refluxo (Nan AR ou Bebelac).

    c) Diminuir o volume de alimento ingerido em cada refeição e aumentar a quantidade de refeições, de modo a não sobrecarregar o estômago com volumes excessivos.

    d) Evitar o uso de substâncias que diminuem o tônus do cárdia e facilitam o refluxo. São elas: as gorduras, o chocolate, a cafeína (chá preto, chá mate, café, refrigerantes à base de "cola" e guaraná), e os líquidos gasosos. Como a cafeína passa para o leito materno, também deve ser evitada pela mãe que amamenta

    e) Evitar certos medicamentos, como a teofilina e a aminofilina, utilizados para o tratamento da bronquite.

    f) Evitar que a criança permaneça em locais onde existam fumantes. A nicotina espalhada pelo tabaco é poderoso relaxante da musculatura do cárdia e intensifica potentemente o refluxo gastroesofagiano.

    3. Postural, que consiste em:

    a) Colocar sempre a criança para arrotar após as mamadas.

    b) Nunca deixar a criança deitada na posição horizontal.

    c) Elevar a cabeceira do berço em ângulo de quarenta e cinco graus, seja pela colocação de calço nos pés do berço, seja pela colocação de cobertores e travesseiros por baixo do colchão.

    d) Confeccionar pequeno suporte de pano, costurando quatro tiras sobre as extremidades de um quadrado de pano, o qual será colocado por entre as pernas da criança e amarrado à cabeceira do berço, de modo que a criança não escorregue, durante o sono, mudando de posição.

    e) Deitar a criança em decúbito lateral, sobre o lado direito ou de bruços, sem travesseiro.

    f) Não usar roupas apertadas. Não movimentar muito a criança.

    O tratamento do refluxo gastroesofagiano prolonga-se por meses e requer muita paciência dos pais, uma vez que nem sempre se conseguem resultados imediatos. A cirurgia é reservada a número muito pequeno de casos, depois do fracasso do tratamento clínico. A maioria das vezes, no entanto, o problema se resolve com o decorrer do tempo, à medida que a musculatura do cárdia começa a se fortalecer.