Estimulando o desenvolvimento neurológico do lactente
Treinando a inteligência emocional

    O controle das emoções é uma das capacidades cognitivas mais importantes para o gerenciamento dos recursos intelectuais como um todo. Pessoas com alta capacidade de controle sobre as reações emocionais têm maior probabilidade de sucesso escolar e profissional do que as dotadas de maiores conhecimentos ou experiência, porém, com dificuldades de controle emocional (55).

    O treinamento do controle emocional não é tarefa fácil para os pais. Duas coisas devem ser consideradas: o exemplo vivenciado no lar e as reações dos pais aos sentimentos da criança. Pais descontrolados têm filhos descontrolados. Pais que não impõem limites de conduta têm filhos com dificuldade de enfrentar frustrações. Neste campo, a sensibilidade aos aspectos psicodinâmicos pode ser mais importante que a obediência a regras e generalizações, mas para perceber o que se passa na cabeça da criança, é necessário que o adulto tenha certo grau de consciência e controle sobre a sua própria dinâmica emocional.

    O primeiro passo é treinar a criança a reconhecer as emoções.

    Desde os primeiros dias de vida, podemos estimular este aspecto do bebê com atitude muito simples: encarando-o e olhando em seus olhos freqüentemente.

    Olhar nos olhos é a atitude chave para a análise emocional.

    Acostume seu filho com este tipo de contato visual desde o nascimento.

    Os seres humanos de todas as raças e povos estão geneticamente programados a demonstrar, através de expressões faciais universais, como anda o seu estado de espírito.

    Os músculos da face estão ligados através de reflexos aos centros emocionais e, apesar de poderem ser controlados conscientemente, geralmente transmitem, através de padrões característicos, mensagens não-verbais importantes do ponto de vista social. Acostumar o bebê com os padrões torna mais fácil o reconhecimento deste tipo de mensagem e conseqüentemente a comunicação (esta entendida no seu sentido amplo e não apenas no aspecto verbal).

    Mais do que isto, já está provado por Imagens de Ressonância Magnética Funcional, que a interação ocular estimula as áreas de recompensa e prazer (Ventral Striatum) do Sistema límbico cerebral, reforçando esta atitude chave na interação humana.

    Propiciar à criança ambiente rico em aspectos emocionais também é importante. Alguns pais tentam "proteger" seus filhos, isolando-os em um mundo hermético e livre de contrastes emocionais, numa tentativa de resguardá-los das agruras humanas. Nada mais equivocado. A criança precisa desenvolver mecanismos de reconhecimento, interpretação e mesmo de atuação efetiva sobre os aspectos emocionais alheios, principalmente pelo fato de que esta é atividade essencial para a coexistência social. Neste aspecto, os pais podem habituar-se a permitir que o bebê simplesmente esteja presente às reuniões de família, conversas com amigos, reuniões sociais; locais, enfim, onde exista interação humana.

    O aspecto emocional pode também ser abordado nas brincadeiras. Atribuir emoções e comportamentos humanos a bonecos, bichos de pelúcia, fantoches e personagens de histórias fictícias, é um modo eficiente de trabalhar este conteúdo e ajudar a criança a reconhecer as próprias emoções e comportamentos. A apresentação de problemas revestidos com aspectos emocionais, quando realizada neste contexto lúdico , auxilia a criança a descobrir que pode, efetivamente, interferir no curso das emoções alheias.

    A abordagem direta dos sentimentos também é importante para crianças que tenham certo grau de compreensão verbal. Aproveitar ocasiões de raiva, medo, alegria ou tristeza para chamar a atenção da criança a fim de reconhecer os sentimentos em si mesma, nomear e discutir abertamente tais emoções também é uma técnica valiosa.

    O controle emocional é um dos requisitos para a mudança comportamental que se opera na infância. O recém-nascido obtém tudo o que necessita através do choro. O choro para a criança é o processo básico de solução de problemas imediatos. Inicialmente, o choro é desencadeado pela sensação de desprazer físico. Mais tarde, com a elaboração dos processos emocionais, a criança começa a ter outras "necessidades" (como, por exemplo, um brinquedo novo) que, se não satisfeitas, vão gerar sentimentos como a raiva e a frustração. A tendência natural da criança é tentar resolver o problema da maneira habitual, ou seja, chorando. Crianças entre um e dois anos com raiva ou frustração realmente canalizam seu comportamento para um pranto incontrolável e sincero. Crianças maiores de dois anos (às vezes menos) podem ter comportamentos mais elaborados, como crises de birra (nas quais o choro pode fazer parte ou não). A crise de birra é a maneira de a criança manipular emocionalmente os adultos com objetivos bem definidos.

    Para lidar com este processo, é essencial que os pais tenham sensibilidade para diferenciar até onde vai a emoção e quando começa a manipulação consciente. Muitas vezes, é difícil até para a criança saber a razão pela qual está chorando. Crianças com sono podem chorar como se quisessem algo que não sabem o que é. Às vezes, a criança pode começar a chorar por um motivo, esquecer o motivo e continuar chorando até que consiga controlar as emoções. Qualquer que seja a razão do choro, quando os pais satisfazem a criança, fornecendo-lhe seu objeto de desejo, estarão reforçando, necessariamente, o comportamento que, mais cedo ou mais tarde, precisará ser corrigido. A correção de comportamento (ou educação) pode ser iniciada a partir do momento em que a criança domine uma estrutura lingüística que permita diálogo efetivo. A presença desta estrutura lingüística pressupõe a existência de capacidade cognitiva capaz de interromper o curso dos circuitos emocionais, na tentativa de ação social mais efetiva. Neste sentido, é importante que os pais deixem de recompensar o choro ou a birra, tenham paciência e procurem estabelecer uma linha de diálogo, assim que a criança dê sinais de que está acalmando-se. O diálogo deve ser consistente, seguro e sempre apresentar razões que justifiquem ou expliquem a atitude ou situação que está gerando raiva ou frustração. As razões são essenciais para a elaboração cognitiva destes processos.

        A manipulação dos sentimentos das crianças pelos adultos também é área que merece atenção especial. É muito comum os pais desenvolverem técnicas de manipulação psicológica, com objetivo de alterar comportamentos específicos. Geralmente, a manipulação é feita com objetivos nobres, outras vezes de forma pueril e inconseqüente. É preciso ficar atento para o que se pretende e o que está realmente em jogo. Compaixão e culpa são duas grandes maneiras de, eliciando emoções, manipular pessoas. A culpa é sentimento, por assim dizer, negativo e praticamente não é reconhecido nos animais, o que equivale dizer que é emoção trabalhada lingüisticamente. O que é a culpa? Quem e o que geram isto em crianças? Pessoas queridas que demonstrem estar "magoadas" com atitudes da criança determinam ou tentam determinar mudanças radicais de comportamento no petiz. Muitas vezes, para o adulto, isto é apenas um teatro que funciona muito bem em crianças. O que não se pode esquecer, no entanto, é que as impressões experimentadas nesta fase de aprendizado e estruturação podem permanecer por toda a vida. Em certas situações, a culpa pode ser sentimento até desejável e regulador do comportamento social. Em outras, pode ser sentimento frustrante e castrador, responsável por inibições, timidez e repressão social. É o que a psicologia chama de superego. Aos pais, como educadores, compete ter a sensibilidade necessária para não abusar deste tipo de processo, utilizando-o apenas com objetivos claros, voltados para a educacão comportamental, latu senso.